terça-feira, julho 26, 2005

A Guiné

POLÍCIA!!!!!!!!!!!!!!!!

Foi esta palavra gritada que trouxe de volta a calma à Guiné-Bissau, acabada de sair da primeira volta das Eleições Presidenciais. Foi ela quem a disse, quem a gritou no meio de uma multidão que atirava tiros para o ar, que fugia ao gás lacrimogéneo lançado pelos agentes de autoridade. Dois mortos e seis feridos.


O meu avião aterrava precisamente nessa altura. Eu ía atrás dela. Queria finalmente entregar-me à Patrícia. Queria que ela me aceitasse para sempre como sua, sua, sua mulher.

A minha filha estava de férias com o pai. Não podia haver melhor altura para resolver esta minha questão avassaladora de fuzíveis cerebrais.
Há mais de dez anos que o meu coração suspira pela Patrícia. Como dizia Eurico o Presbitero, Sabeis Vós “o que são 10 anos”. Dez anos foi o tempo suficiente para me enlouquecer de Amor, de Raiva, de Ódio, de Alegria, de Prazer e de Dor quando o prazer era em demasia.

Agora, acabada de chegar da Guiné-Bissau, sei que amo a Patrícia até ao fim dos meus dias ainda que ela não volte a olhar-me na cara coisa que duvido.
Capítulo I
Para mim, Patrícia não passa da mulher mais bonita do mundo. Os olhos são enjoativamente pálidos de um azul piscina que me cansam, que me enfadam a imaginação.Não é por aí.
Não são os seus olhos, aquilo que todos os homens e mulheres nela cobiçam.
A minha mãe sempre teve uns olhos oceânicos, a minha família está cheia de azuis oculares e de toureiros. Chegou um dia da Alsácia Lorena, misturou-se com o Ribatejo e com a Guarda e veio dar a mim, uma mulher com uma cara limpa de olhos castanhos, nada por aí além, apenas inesquecível.
O que me apaixona imensa e eternamente na Patrícia é o seu envelhecimento, a sensação de que ficarei junto dela para sempre, até ela chegar a um ponto de fealdade insuportável.
Acabei de chegar de ao pé dela. Perdeu metade da juventude e da beleza que tinha:
-Acabou-se-te o reinado da beleza. Estás feia e no entanto nunca te amei como agora
-Apanha o blusão, respondeu-me.
Capítulo II
Estação das chuvas na Guiné. Por cada carga de água, eu e Patrícia discutiamos como duas Deusas no Olimpo. Iradas, quase que nos matámos. Depois, assim que chegava o sol abraçámo-nos. E foi nesses abraços que eu senti o raio dos quimicos a funcionarem. Oxitocina sempre. Sussurrámos palavras, eu senti arrepios pelo corpo todo e na cabeça. Só não sei se ela os sentiu. Perante mim o seu comportamento diz-me sempre não mas eu sinto sempre sim e que vulgar é permanecer nesta situação. Já toda a gente passou por isto e no entanto, passaram dez anos e ainda não me libertei. Porquê?
Capítulo III
Em síntese Patrícia nasceu em Lisboa, fugiu de um casamento imposto por um pai que na verdade nunca a reconheceu como filha. Chegou a ser empregada de limpeza e hoje é uma das jornalistas mais respeitadas do Portugal socratiano .
Nos Países Baixos evidenciou-se por condenar veementemente a opressão de que as mulheres muçulmanas são vítimas e por concordar com uma deputada africana que declarou que, "segundo os critérios actuais, o profeta Maomé seria considerado tirano e perverso”.
A descrição é forte mas, com certeza, demorou-lhe as passas do algarve até lhe assentar na perfeição.
Tem 34 anos. Um pai conhecido e uma mãe fantástica, uma terra natal que vem do Oeste.
O Negro do chocolate com leite, dentes brancos, cabelo cuidadosamente apanhado, nariz ocidental, um discreto brinco de pérola na orelha, apenas para os mais atentos. Dedos delgados e compridos, mãos de mulher com pé grande. Hoje tem a "cara que merece"
Para muitos devia limitar-se a um banco de piano de cauda mas, com todo o respeito e admiração que tenho por todos os que decifram e interpretam a Música, Patrícia esforçou-se muito mais do que isso. Obrigou-se a ser livre. A Guiné é o cenário actual mas antes passou pelo mundo inteiro. Aparentemente fugiu destes países, da sua religião e do seu marido mas acredito que Patrícia nunca fugiu a coisa nenhuma. Um dia um jovem jordano convertido ao Islão, “tocou-lhe no ombro”. “Voltei-me e vi um príncipe que me pareceu um belo rapaz sardento, por volta dos seus 24 anos, e que me disse: Minha senhora, quero-a para todo o sempre”. Patrícia “estendeu-lhe a mão e respondeu: Eu também mas agora não me dá jeito.”.
Obviamente não passa um segundo sem os “seus companheiros de infortúnio”, os guarda-costas. Poderia ter o estatuto de símbolo nacional, que a elevasse acima dos seus iguais, mas no dia a dia ela esvoaça numa prisão.
Capítulo IV
Patrícia libertou-se finalmente e atendeu o telefone...fez mais, foi ela própria quem me telefonou.
-O que é que queres?
-Dizer-te que lamento...
-O quê...
-Não faço a mais pequena ideia.
-OK
-OK?
-OK
Deligámos ao mesmíssimo tempo e encontrámo-nos logo e de imediato.
Capítulo V
E não é que fomos mesmo felizes para sempre? A sensação foi esta precisamente. A de sermos felizes, a de estarmos felizes. O momento atingiu os píncaros e que bem que se aprecia a vista do alto da felicidade e que bem que se afasta a morte e que se percebe, finally, o sentido da palavra imortal. Highlander. Lembram-se daquele filme dos Imortais com o Cristopher Lambert? Precisamente, mais uma vez. A sensação de que viveremos para sempre e de que havemos de sentar-nos numa esplanada a recordar os amores de dez mil anos.
Capítulo VI
A segunda volta das eleições decorreu sem problema maior. Não houve mortos. Ficaram apenas os feridos que foram tratando as suas dores com aspirinas naturais lá da terra de Bissau. O vencedor, o novo presidente é um antigo facínora arrependido que precisa de redimir-se aos olhos de Deus. Este assassino e mandante de mortes sonha todos os dias com Amílcar Cabral.São verdadeiros pesadelos. O Homem assassinado a mando de quem entra-lhe no sono como um furacão. Nino Vieira acorda sempre banhado em suor e durante todo o dia ouve frases soltas do Cabral, que lhe foram gritadas durante o sonho. Vieira só tem um minuto de calma por dia.Aquele em que recorda as minhas braçadas na piscina do Bissau Hotel, aquele em que recorda o som de uma Dunlop a bater no centro de uma Wilson, a minha raquete de Ténis.
Catarina Miranda

27 Comments:

Blogger catarina said...

Quem achar que merece a pena continuar a contar esta história,levante a mão.
Muito Obrigada:)

7/02/2005 2:10 da tarde  
Anonymous sara monteiro said...

Continua, Catarina. E depois?

7/02/2005 5:49 da tarde  
Anonymous patrícia said...

Não me parece Catarina, não me parece. Deixa-me em Paz. :)

7/03/2005 12:11 da manhã  
Blogger catarina said...

Minha Querida:

Se queres que te deixe em paz é melhor escrever por aqui. Simplesmente tenta não ler.
Amo-te. Perdoa-me o transtorno mas sou tentada a seguir a Sara.
Sara
Ajuda-me.Acho que não me sinto bem.

7/03/2005 1:00 da manhã  
Blogger macha k said...

Já aqui vim uma vez. Gosto desta escrita. Vem passar a noite com a Patrícia ao Hotel Sossego.
http://sossegohotel.blogspot.com
Há sementes para todos e muita festa!

7/03/2005 9:23 da manhã  
Anonymous patrícia said...

Claro que já te libertaste catarina...deixa-te de fitas

7/03/2005 10:38 da manhã  
Anonymous patrícia said...

Obrigada Catarina:)

7/04/2005 3:55 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Continua.Porque não?

7/04/2005 3:07 da tarde  
Anonymous Jaime said...

Sou um veterano dos tempos coloniais e estou interessado nesta historieta, onde é que posso ler mais?

7/04/2005 3:32 da tarde  
Anonymous catarina said...

Vou tentando:)continuar o que me é dificil escrever. Haja paciência para mim:)

7/04/2005 3:34 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Toda

7/04/2005 7:26 da tarde  
Anonymous catarina said...

Se calhar sou capaz de continuar...logo se vê*


*logo se vê

7/08/2005 4:03 da tarde  
Blogger catarina said...

Continuei.Resta saber (expressão que abomino)se continuo ou não.Preciso de disciplina.Vou disciplinar-me.Esta Guiné anda numa confusão desgraçada.Organiza-te Guiné!

7/11/2005 3:26 da tarde  
Anonymous patrícia said...

Atrasada como sempre. A Guiné já se organizou. Só está à tua espera para fazer a festa:))))))))

7/11/2005 3:27 da tarde  
Blogger catarina said...

Sempre que o Amor...Sempre em Festa.

:)

7/11/2005 3:28 da tarde  
Anonymous catarina e patrícia said...

Atenção, em festa...Não à Guerra, Não Há Guerra.Há Paz e Amor e Bem e prosperidade:)

7/21/2005 5:10 da manhã  
Anonymous Jack|Bauer said...

catarina e patricia, caso de dupla personalidade?

7/26/2005 6:44 da tarde  
Anonymous patrícia said...

jack e bauer deixem-nos em paz que a gente também não vos chateia com patetices de malucos.

8/10/2005 12:04 da tarde  
Anonymous Jack|Bauer said...

Jack Bauer = primeiro e último nome, não sofro de doença mental ao ponto de me dobrar em duas pessoas. ;)

9/22/2005 3:34 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Que lindo texto.Já foi escrito há tanto tempo.O que será que lhes aconteceu...terão morrido entretanto?terão ficado amigas?terão ficado zangadas? terão ficado bem...finalmente?
Que lindo texto.

6/30/2007 8:57 da manhã  
Anonymous Paulino said...

Espera aí que houve aqui um totó que pensou que era um desdobramento de personalidade.Não percebeu que isto são mesmo duas gajas e uma paixão e o escafandro a quatro....Pera aí que houve aqui um corno manso que se quis vir aqui vingar.Tá bem! Parece-me bem.Um corno manso tem o direito de se chatear caramba.

6/30/2007 9:00 da manhã  
Blogger catarina said...

estaremos prontas.estou apavorada.não sei se sei ouvir a tua voz.vou tentar e logo se vê.seja o que deus quiser.

7/19/2007 4:48 da tarde  
Blogger catarina said...

meu grande e único amor.deixa-me só ouvir a tua voz numa conversa telefónica superficial.Basta-me isso para estar feliz.tu bem sabes.

7/27/2007 5:40 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Tábem pronto....As you Like It

7/31/2007 7:01 da tarde  
Blogger catarina said...

God...I am so dead inside...yet i am breathing.She says I am alive


:)

8/13/2007 4:55 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Posso ir cear contigo.Acho que me estou a apaixonar por ti

8/13/2007 4:56 da tarde  
Blogger catarina said...

Credo.Passaram 4 anos. Demorei 4 anos a curar-me desta e finalmente quando estou curada aparece-me Outra mas diferente. Sei que já não é a doença a bater à porta.
Boa! Consegui.

6/10/2009 4:34 da tarde  

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